terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Conceito de Palavra

A CONCEPÇÃO DE PALAVRA EM BAKHTIN

Marinalva Vieira Barbosa Professora de Língua Portuguesa e Literatura marinalvab@bol.com.br

Todorov, no prefácio da Estética da Criação Verbal, define Bakhtin como uma das figuras mais múltipla e enigmática da cultura européia de meados do século XX. Procurando romper com a concepção de homem que adquire uma linguagem ideal, pronta e acabada, e com a dicotomia que toma a linguagem como forma e conteúdo, Bakhtin concebe um homem que dialoga com a realidade por meio da linguagem. Este teórico provoca fascínio, talvez, pela sua capacidade de ver o mundo, o homem e a linguagem como sendo partes de um mesmo processo dialético.
As concepções de Bakhtin exigem do leitor um olhar múltiplo sobre o mundo e sobre o outro. Trata-se de uma teoria que vê o mundo a partir de ruídos, vozes, sentidos, sons e linguagens que se misturam, (re)constroem-se, modificam-se e transformam-se. Dentro desse burburinho, a palavra assume papel primordial, pois é a partir dela que o sujeito se constitui e é constituído. Para pensar a palavra a partir dessa perspectiva, faz-se necessário considerar o direito e o avesso não como partes distintas, mas como elementos que se complementam por meio de uma relação dialógica.
Essa visão dialógica supera a descrição dos elementos estritamente lingüísticos e busca também os elementos extralingüísticos que, direta ou indiretamente, condicionam a interação nos planos social, econômico, histórico e ideológico. Para pensar a concepção de palavra para Bakhtin, é preciso abandonar a noção de codificação e decodificação que dá margem a uma percepção de língua como sendo um código fechado. Assim, a linguagem e a história são pontos fundamentais na compreensão das questões humanas e sociais. Por ser polissêmica e dialógica, a palavra traz marcas culturais, sociais e históricas. Neste ponto Bakhtin estabelece o maior divisor de águas na construção de sua teoria sobre a língua, pois ao afirmar que o contexto histórico é parte constitutiva da linguagem, ele questiona as concepções estruturalistas que tomam a palavra como parte de um sistema abstrato de formas, em que o falante não tem poder de intervenção. O contexto histórico transforma a palavra fria do dicionário em fios dialógicos vivos que refletem e refratam a realidade que a produziu. (Bakhtin, 1995)
A palavra, em situação de uso, é um espaço de produção de sentido. Dela emergem as significações que, conseqüentemente, se fazem no espaço criado pelos interlocutores em um contexto sócio-histórico dado. Por ser espaço gerador de sentido é controlada, selecionada por meio dos mecanismos sociais. Diante disso, há o que poderíamos chamar de determinismo social, ou seja, dependendo do interlocutor, da situação de uso, o falante determina qual a melhor palavra a ser utilizada.
Não podemos pensar em um total assujeitamento do sujeito falante ao contexto social. Ao contrário, se por um lado ele se submete, modifica-se para adequar-se à ordem social em que está inserido, por outro, também interfere e muda tal contexto. Trata-se de uma relação que constitui e é constituída, uma vez que a linguagem não é sistema fixo e abstrato, por isso permite ao sujeito falante abrir fissuras, construir outros sentidos, romper o cerco do sentido já dado.Daí Bakhtin falar do processo de reflexão e refração. Neste caso, a palavra, quando entra na arena discursiva, passa por constantes transformações. Ela é lançada pelo locutor, mas quando devolvida pelo interlocutor, que já tem mudado de posição, passando a ocupar a posição daquele, não é mais a mesma. É a palavra do primeiro locutor, que a proferiu considerando o seu interlocutor, mais o sentido do segundo locutor, que a devolve com uma carga a mais de sentido. Assim, podemos afirmar que, em situação de uso, a palavra se vai revestindo de sentidos, tons e valores. Ela é prenhe de significados.
Para Bakhtin, a palavra não é somente um universo de sentidos ou signo puro, é também um signo neutro. Ela é neutra em relação a qualquer função ideológica determinada, aceita qualquer carga ideológica. Daí Bakhtin considerá-la como o modo mais sensível de relação social, uma vez que se faz presente em todos em todos os domínios sociais. É por meio da palavra que percebemos as mudanças mais efêmeras que ocorrem na sociedade.
Para compreender como se dá o processo de construção do sentido, é preciso ver a palavra como um signo ideológico, pois só assim é possível perceber a sua capacidade de assumir múltiplas tonalidades em diferentes campos como o político, o moral e o religioso. Os sentidos funcionam como camadas superpostas que se vão juntando. É o contexto, a situação social, o lugar ocupado pelo falante que determinam qual o sentido que deve ser dado à palavra. Em situação de uso, a neutralidade da palavra não é possível porque o processo de interação não acontece de forma simétrica entre os interlocutores. Por meio da linguagem as divergências, a materialização das lutas de classes, a disputa pelo poder por grupos antagônicos, as crenças religiosas e as demonstrações de preconceitos são colocadas em evidência.
A mobilidade da palavra faz com que nenhum falante seja o primeiro a proferir determinado tópico discursivo. Ao usar a palavra, encontramo-la já habitada pelas falas de outrem, pois ela penetra em todos os domínios da sociedade, por isso é indicadora das transformações que a sociedade infere no ser humano; a palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa desejada ou temida como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo. (Calvino, 1995; p. 90)Se para Calvino a palavra é a coisa visível e invisível, para Bakhtin ela é a ponte que, quando lançada, de um lado está o locutor e do outro encontra-se o interlocutor. Em cima dessa ponte se dão as tramas sociais e ideológicas que determinam os sentidos da palavra. É interessante observar que tanto Bakhtin como Calvino vêem a palavra como algo que mostra e oculta, que é clara e escura. É no entremeio dessa dualidade que está o território comum dos falantes.
Diante dessa dupla face, Calvino (1995) defende a necessidade de respeito no uso das palavras, pois elas permitem aproximar-nos das coisas presentes e das coisas ausentes. Isso exige cautela, pois as coisas ausentes, embora não ditas, estão presentes, não se distanciam, comunicam-se, mesmo não estando explícitas na materialidade da palavra. O horizonte social mais imediato e o mais distante se fazem presentes na palavra.Bakhtin fala em auditório social imediato e mediato. Se no processo de interação o interlocutor presente direciona a palavra do outro, este também não perde de vista falas, vozes, valores, concepções que se fazem ouvir, embora distantes. Como a palavra traz as marcas históricas, sociais e culturais, a gama de sentido que ela denota é algo que vai sendo produzido de acordo com os processos de mudanças sociais, ou seja, os vários sentidos das palavras são construídos ao longo da história, em momentos singulares, pelos sujeitos sociais em interação verbal.
A palavra possui uma gama de rumores que perturbam a constituição do discurso. Ao refletir e refratar a densidade do mundo que a produziu, revela-se lacunosa e fragmentária. Em situação de uso, ela abre fissuras e brechas que permitem a interferência do outro na construção do sentido. Em cada palavra há vozes, vozes que podem ser infinitamente longínquas, anônimas, quase despersonalizadas ..., inapreensíveis, e vozes próximas que soam simultaneamente. (Bakhtin in Kramer,1996; p.109)
Dentro desse jogo dialético - da palavra que liga a palavra - o sujeito falante, que apreende o discurso do outro, não é um ser mudo e passivo. Ao contrário, é um ser perpassado, cindido pelas suas palavras e pelas de outrem. Podemos afirmar, utilizando-se da voz de Chico Buarque, que no processo de apreensão é estabelecida uma relação em que a palavra viva/ palavra com temperatura/ que se produz/ muda/ feita de luz mais que de vento/ palavra... que indo a palavra permite a constituição do sujeito por meio da e na linguagem.
Esse processo de interação não ocorre fora do contexto social e histórico, é fruto da interlocução de dois falantes pertencentes a um mesmo contexto. Nesse caso, questões como classe social, hierarquia e afetividade são determinantes para a construção dos sentidos. Não existe interlocutor abstrato, uma vez que o horizonte social é determinante no processo de uso da palavra. Esse horizonte é internalizado pelo falante, que passa a fazer suas deduções e considerações com base no contexto que o cerca.
Ao orientar a sua palavra a partir do seu interlocutor, o falante constitui a sua subjetividade considerando o seu outro. Esse processo funciona como um espelho em que o falante busca refletir-se, daí o fato de a palavra ter dupla face, pois é determinada tanto pelo fato de preceder de alguém, como por dirigir-se a alguém. Podemos afirmar, assim, que a sua existência está intrinsecamente ligada à realidade social, fora do contexto de uso é destituída de sentido. A palavra é uma arena em miniatura onde se perpassam e lutam os valores sociais de orientações contraditórias. É a partir do momento em que o sujeito falante entra nessa corrente ideológica, uma vez que a palavra é um signo ideológico por excelência, que constrói a sua visão de mundo. Neste sentido, a palavra, quando proferida, traz as marcas inalienáveis da vida. (Bakhtin, 1995; p. 49)
Tais fatores extralingüísticos determinam socialmente as palavras dos interlocutores, uma vez que eles também são sujeitos sócio-históricos e trazem valores, ideais, desejos, culturas e marcas de pertencimento sócio-político-econômico diferentes. Tais pertencimentos, que marcam singularmente os sujeitos, se fazem presentes na materialidade de suas palavras.
As palavras refletem, não de forma mecânica, os conflitos e apontam as marcas ideológicas distintas de cada sujeito em interação. Nessa visão bakhtiniana não existe pensamento e linguagem inatos. A atividade mental do sujeito pertence totalmente ao campo social, pois a palavra e o material semiótico, externos aos sujeitos, são elementos determinantes para a organização do pensamento que, posteriormente, retorna ao campo social.A palavra, em sua condição de signo, é adquirida no meio social que, interiorizada pelo sujeito, retorna ao meio social por meio do processo de interação, numa forma diferenciada, ou seja, ela é dialeticamente alterada devido às colorações ideológicas que marcam as condições de produção.
Em razão desses condicionamentos sociais e históricos que perpassam tanto os sujeitos quanto as palavras, somente o acontecimento enunciativo dará a significação da palavra que, muitas vezes, será diferente da significação registrada no léxico; a significação é construída no processo de interação social. Assim, a palavra é constitutiva tanto da consciência quanto do desenvolvimento humano. A linguagem é constitutiva dos sujeitos sociais.
BIBLIOGRAFIA
BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo, Hucitec. 1995.CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia da Letras. 1995.KRAMER, Sônia & LEITE, Maria Isabel. Infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas, Papirus. 1996.

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